terça-feira, abril 03, 2012

A Capela da Ordem Terceira do Carmo

Em tempos de Semana Santa, trazemos, nessa postagem, a Capela da Ordem Terceira do Carmo, em Belém, seguindo a tradição, localizada ao lado da Igreja do Carmo.
Não há documentação com relação a seu projeto e sua construção, porém, segundo Mendonça (2003, p. 403), não há como negar o traço de Antônio Landi em sua configuração e em seus ornatos.
A linguagem ornamental traz muito do repertório do artista bolonhês. O retábulo-mor e os laterais mostram elementos que configuram os ornamentos presentes em sua obra. Vasos, florões, aconcheados, acantos estrangulados, grinaldas, volutas, encadeados, cartelas, capitéis em forma de placa com volutas convergentes, o frontão mistilíneo do retábulo-mor, o resplendor com a Pomba do Espírito Santo, entre outros elementos, só confirmam a presença do artista nessa ermida.
Nave da Capela da Ordem Terceira do Carmo, tendo, ao fundo, o altar-mor
Foto: Celso Roberto de Abreu Silva

A seguir, os retábulos localizados nas laterais da nave.
Obedecem sempre a mesma tipologia: frontão e peanha centralizada enquadrada para colocação da imagem. Os ornamentos recorrentes são vaso com flores no topo da composição, medalhão ao centro do frontão que é ladeado por vasos fogareu, volutas e pilastras ornadas com detalhes vegetalistas. As imagens de Jesus Cristo mostram passagens que atecedem à crucificação.
 
Ecce Homo, "Eis o homem!" (Jo 19, 5)
Fonte: Biblioteca Digital Fórum Landi
Bom Jesus da Pedra Fria (ou da Paciência)
 Fonte: Biblioteca Digital Fórum Landi
 Bom Jesus da Coluna
Fonte: Biblioteca Digital Fórum Landi
 Fonte: Biblioteca Digital Fórum Landi
 Fonte: Biblioteca Digital Fórum Landi
Bom Jesus dos Passos
Fonte: Biblioteca Digital Fórum Landi
Jesus Crucificado
Fonte: Biblioteca Digital Fórum Landi

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MENDONÇA, Isabel Mayer Godinho. Antonio José Landi (1713-1791): um artista entre dois continentes. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.

OLIVEIRA, Domingos Sávio de Castro. O vocabulário ornamental de Antônio José Landi: um álbum de desenhos para o Grão Pará. 2011. 227 p. Dissertação (Mestrado em Artes). Instituto de Ciências da Arte da Universidade Federal do Pará, Belém, 2011


quinta-feira, fevereiro 16, 2012

Acrotérios

O acrotério, do grego, elemento mais elevado, é o recurso que serve como arremate ornamental para o ponto mais alto de um frontão. Templos antigos apresentam esse elemento em uma grande variedade de materiais: pedra ou terracota, por exemplo, dependendo do material de que é feita a cobertura. Grupos de figuras, por vezes, foram utilizados para esse fim, mas os habituais recursos foram placas de mármore, tendo como ornamento uma palmeta e, por vezes, uma máscara.

Templo de Zeus, Olímpia, Grécia
Fonte: upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/47/Zeustempel_Olympia.PNG

O acrotério de canto, ou angular, é usualmente encontrado nas extremidades inferiores dos frontões triangulares, e consistem na metade do motivo do elemento central. Utilizados, primeiramente, na arquitetura da Antiguidade Clássica, foi utilizado também como elemento ornamental de urnas funerárias e sarcófagos.
Exemplos de acrotérios
Fonte: Meyer (1920?), p. 168

O acrotério obteve, com o passar do tempo, um desenvolvimento na decoração escultórica. O mais comum é a utilização de elementos vegetais, entretanto também é possível encontrar esculturas de aspecto redondo como vasos, bolas, globos, prismas facetados, pinhas, animais fantásticos e até estatuetas humanas. Ao se adaptar aos edifícios revivalistas e classicistas, passou a ser usado também na arquitetura não religiosa, deixando de surgir somente em edifícios públicos, para ser empregado, em todas as tipologias arquitetônicas.

A seguir, alguns exemplos de acrotérios encontrados na cidade de Belém.
Os dois exemplos que seguem estão aplicados: o primeiro em uma edificação civil e o segundo em uma edificação religiosa. A respeito do primeiro, ressaltamos que não foi utilizado em um frontão triangular como de costume, e do segundo, destaque para as exageradas proporções em relação às dimensões da pequena capela.
Boulevar Castilhos França esquina com a Travessa Frutuoso Guimarães, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2011

Capela da Medalha Milagrosa, Rua Senhador Lemos, Telégrafo, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2011
 
As próximas imagens, referem-se a túmulos localizados no Cemitério da Soledade, na área central da cidade. Os acrotérios aí existentes são, na maioria das vezes, em forma de placas com motivos vegetalistas, mas podem ser encontrados também sob a forma de cruzes, estátuas e vasos.
A respeito desse cemitério, ver as postagens Portas da Saudade, Ornamentos da Saudade I e Ornamentos da Saudade - final.
 Detalhe de um mausoléu no Cemitério da Soledade, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2011

 Detalhe de um mausoléu no Cemitério da Soledade, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2011

 
Detalhe de um mausoléu no Cemitério da Soledade, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2011

Detalhe de um mausoléu no Cemitério da Soledade, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2011

O Palácio Antônio Lemos, a seguir, edificação do século XIX, do chamado estilo Império Brasileiro, mostra frontões triangulares e acrotérios em forma de estátuas e vasos.
Acrotérios em forma de estátuas na fachada do Palácio Antônio Lemos, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2009
Acrotérios em forma de vasos na fachada do Palácio Antônio Lemos, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2009

O acrotério, aparece na obra do italiano Antônio Landi, comumente sob a forma de uma cruz do tipo latina. São exemplos, as fachadas para as igrejas de São João Batista e Santana, a seguir.
Fachada da Igreja de Santana, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2011

Fachada da Igreja de São João Batista, Belém, Pará
Foto: autor desconhecido

Ainda na obra landiana (desenhos), é possível encontrar acrotérios sob a forma de cruzes, de prismas facetados ou de vasos fogaréu, como nos exemplos a seguir.
Detalhe da fachada da Igreja de Gurupá, Pará (cruz e prismas facetado)
Fonte: Biblioteca Nacional do Brasil - Rio de Janeiro

 
Detalhe da fachada da Igreja de Igarapé-miri, Pará (cruz e prismas facetados)
Fonte: Biblioteca Nacional do Brasil - Rio de Janeiro

 Capela para o palácio da família do Governador Teive, Pangim, Índia (cruz e vasos fogaréu)
Fonte: MENDONÇA, 2003, p. 491

Capela para o palácio da família do Governador Teive, Pangim, Índia
 (outra versão) (cruz e vasos fogaréu)
Fonte: MENDONÇA, 2003, p. 492
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MENDONÇA, Isabel Mayer Godinho. Antonio José Landi (1713-1791): um artista entre dois continentes. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.

MEYER, Franz Sales. A handbook of ornament. New York, The Architectural Book Publishing Company, 1920?. Disponível em: http://ia331434.us.archive.org/1/items/handbookoforname1900meye/handbookoforname1900meye.pdf> Acesso em: 25 jul 2010.

OLIVEIRA, Domingos Sávio de Castro. O vocabulário ornamental de Antônio José Landi: um álbum de desenhos para o Grão Pará. 2011. 227 p. Dissertação (Mestrado em Artes). Instituto de Ciências da Arte da Universidade Federal do Pará, Belém, 2011.

domingo, fevereiro 05, 2012

Cariátides

Foi frequente, o uso da metade superior do corpo humano como ponto de partida do ornamento, ou misturada com animais, originando, por exemplo, esfinges e centauros.
Nas arquiteturas egípcia, persa, grega e romana é possível encontrar figuras humanas como apoios de vigas e telhados. Os nomes modernos para tais suportes são derivados da Antiguidade. Segundo a mitologia grega, o Atlas suporta o cofre do céu nas extremidades da terra, daí provindo o nome Atlantes para os apoios em forma masculina. O nome Cariátide, para figuras de apoio femininas, é derivado da cidade de Caryae, no Peloponeso, ou segundo outra versão, imitações de virgens que dançavam no Templo de Caryse na festa de Diana. Sua introdução na arquitetura também pode ser devida ao fato de que as Senhoras de Caryae, como castigo pelo apoio que deram aos persas, foram obrigadas a servir como transportadoras de carga (MEYER, 1920, p. 241).
De frente e de lado, Cariátides, à esquerda, e Atlantes, à direita
Fonte: Meyer, 1920, p.243
A Idade Média fez pouco uso de atlantes e cariátides; a Renascença e os estilos seguintes, ao contrário, usaram-nos livremente, isolados ou conectados com paredes, em alto e baixo relevo.

Da arquitetura em Belém, inspirados nas Cariátides gregas, extraímos os dois exemplo a seguir, ambos utilizados como suportes de sacadas.
 Av. Generalíssimo Deodoro, Nazaré, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2011
  Av. Generalíssimo Deodoro, Nazaré, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2011
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MEYER, Franz Sales. A handbook of ornament. New York, The Architectural Book
Publishing Company, 1920?. Disponível em: http://ia331434.us.archive.org/1/items/handbookoforname1900meye/handbookoforname1900meye.pdf> Acesso em: 25 jul 2010.

terça-feira, janeiro 31, 2012

Máscaras e mascarões


A figura humana foi, e é, o objeto favorito de representação na arte. quer sob a forma de deuses, seres venerados, figuras  imaginárias.
O corpo humano é, muitas vezes, representado sem qualquer significado e apenas como ornamento por conta da beleza da forma.


Esta postagem e as seguintes têm como objetivo mostrar o que se tem nas fachadas de algumas edificações de Belém quando o tema é a figura humana.


A cabeça humana, isolada do resto do corpo, tem sido utilizada sob duas formas: a primeira, de forma mais ou menos fiel à natureza ou idealizada – a máscara - e a segunda – o mascarão - com face sorridente ou cheia de deformações ou distorções, estranhas combinações de formas humanas com formas de animais ou plantas e com caráter fantástico ou grotesco. Os mascarões, além da figura humana, também aparecem com cabeças de animais.
Ambas são utilizadas na ornamentação de edificações (frontões, arcos de portas e janelas, mísulas, platibandas, azulejos), nos objetos, como adorno (chaves, utensílios domésticos), bem como em fontes, chafarizes e carrancas de pedra.
A máscara, na origem do termo, é um rosto oco e artificial e destinada a esconder a expressão humana, a fim de tornar quem a usa, irreconhecível, ou para caracterizá-lo de alguma forma especial. A utilização das máscaras provém da Grécia, dos jogos da colheita e desses foram transferidas para o teatro, em que os atores apareciam mascarados. Diferentes tipos de máscaras são identificados: trágica, cômica, ligadas ao caráter das pessoas. De teatrais, as máscaras passaram à utilização artística, por exemplo, nas pinturas murais de teatros e edifícios seculares, vasos das Bacantes e outros utensílios. O Renascimento e os estilos seguintes empregaram máscaras na decoração, alterando e exagerando as formas.


Em Belém, máscaras e mascarões podem ser encontrados nas fachadas de algumas edificações como os exemplos a seguir.


Máscara, Av. XV de novembro, Campina, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2011


 
Máscaras, Rua Gaspar Viana, Campina, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2011

Máscaras, Av. Presidente Vargas, Campina, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2011

Máscara, Teatro Waldemar Henrique, Praça da República, Campina, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2011

Mascarão, Rua 28 de setembro, Campina, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2011

Mascarão, Av. Nazaré, Nazaré, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2011

Mascarão, Rua Dr. Malcher, Cidade Velha, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2011

Mascarão, Rua João Diogo, Campina, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2011

Mascarões, Rua 28 de setembro, Campina, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2011

Marcarão, Av. Generalíssimo Deodoro, Nazaré, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2011
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Fonte: OLIVEIRA, Domingos Sávio de Castro. O vocabulário ornamental de Antônio José Landi: um álbum de desenhos para o Grão Pará. 2011. 227 p. Dissertação (Mestrado em Artes). Instituto de Ciências da Arte da Universidade Federal do Pará, Belém, 2011.

quinta-feira, janeiro 12, 2012

Horror, espanto, dor...

Neste 12 de janeiro de 2012*...
Não há o que comemorar.
A cidade, por si, se mostra.

Expressões de horror, de espanto e de dor de um patrimônio...

Da esquerda para a direita, de cima para baixo:
Rua Santo Antônio, Rua João Diogo, Avenida Nazaré, Avenida 16 de novembro
Fotos: Domingos Oliveira, 2011

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* A cidade de Belém, no Pará, foi fundada em 12 de janeiro de 1616, por Francisco Caldeira de Castelo Branco.

sábado, dezembro 17, 2011

Anjos "sobre" Belém

Anjo (no grego ággelos (ἄγγελος) e no latim angelus), conforme a tradição judaico-cristã, são seres espirituais, conservos de Deus (Apocalipse 19:10).
Os relatos bíblicos e a hagiografia cristã - relato ou biografia da vida de um santo - contam que os anjos, muitas vezes, foram agentes de feitos miraculosos, e a crença nesta tradição é que uma de suas missões é auxiliar o homem a se aproximar de Deus.
Para algumas religiões, os anjos são espíritos puros assexuados, intermediários entre Deus e a humanidade.
A partir da Idade Paleocristã, foram representados, em geral, como rapazes alados e com auréola luminosa e, no Renascimento italiano, também em forma de meninas. Cabeças de anjos com asas, cabeças de jovens com uma auréola, são encontradas, pela primeira vez, no estilo Bizantino. No Renascimento italiano, a representação teve caráter ingênuo, nos frisos e arcos, nos preenchimentos de medalhões e nas molduras. Muitas vezes, ocorreram em túmulos e são muito utilizados na moderna decoração eclesiástica.
A seguir, algumas figuras angelicais existentes em igrejas de Belém e os dois últimos exemplos, na fachada de uma residência e no Cemitério da Soledade.

Nos retábulos laterais da Igreja de Santo Alexandre, é possível encontrar alguns exemplos, como o que segue, localizado no coroamento de um nicho.

Da catedral da Sé, destaco dois exemplares.
O primeiro coroa a moldura de uma tela localizada em uma das dez capelas laterais.
  
No segundo exemplo, uma cabeça de anjo com um par de asas forma, com enrolamentos vegetalistas, a composição encontrada na moldura das janelas superiores das paredes laterais da nave da igreja.

Nos altares laterais da Igreja do Carmo, servindo de peanha para as imagens de santos: cabeças de anjos aladas ladeadas por volutas.
No frontão do retábulo de Nossa Senhora do Carmo, localizado no transepto da igreja carmelita, há uma cabeça de anjo alada. Semelhante elemento se repete no lado oposto do mesmo transepto, no retábulo do Santíssimo.
Retábulo de N. S. do Carmo, Igreja do Carmo, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2010
Retábulo do Santíssimo, Igreja do Carmo, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2010

Na Igreja das Mercês, é possível encontrar duas cabeças de anjo aladas, sobre cada uma das portas laterais à capela-mor.
Detalhe de moldura de porta, Igreja das Mercês, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2010

Na Capela Pombo, edificação atribuída ao italiano Antônio Landi, há dois exemplos de anjos no retábulo-mor.
Cabeça de anjo ladeada por volutas e elementos vegetalistas,
no retábulo-mor da Capela Pombo, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2010
 
Cabeça de anjo ladeada por volutas e elementos vegetalistas, 
sobre o nicho do retábulo-mor da Capela Pombo, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2010

Os anjos aparecem predominantemente nas edificações religiosas, mas é possível encontrá-los, por exemplo, em residências. No exemplo a seguir, o detalhe está no fato de que os anjos estão representados não apenas por cabeças, mas com o corpo inteiro.
Fachada de uma residência na Travessa Doutor Moraes, Belém, Pará
Foto: Domingos Oliveira, 2011

A seguir um dos muitos exemplos existentes no Cemitério da Soledade. Na imagem, a fachada de um mausoleu, na qual se vê, no frontão e no arco da porta, duas cabeças de anjos aladas.
Para mais exemplos de anjos existentes no Cemitério da Soledade consultar: Ornamentos da Saudade I.

Fotos: Domingos Oliveira

Fonte:
OLIVEIRA, Domingos Sávio de Castro. O vocabulário ornamental de Antônio José Landi: um álbum de desenhos para o Grão Pará. 2011. 227 p. Dissertação (Mestrado em Artes). Instituto de Ciências da Arte da Universidade Federal do Pará, Belém, 2011.

sábado, dezembro 03, 2011

Ornamentos da Saudade - final

Dando prosseguimento a minha contribuição aos estudos do Cemitério da Soledade, a seguir, listo, mais alguns ornatos encontrados nesse espaço.


Em todas as eras, as flores foram extremamente populares na arte ornamental, seja no plano, seja no relevo. Foram usadas sob as formas mais diversas, aplicadas em ramos, festões, guirlandas e coroas. A flor lembra o estado de infância e, assim, de certa forma, o paraíso. Os túmulos do Cristianismo primitivo (assim como dos pagãos) eram localizados, com frequência, dentro de jardins. Enfeitavam-se os túmulos com flores frescas, ou com suas representações, a fim de evocar a imagem do paraíso repleto de flores. Uma vez que igrejas e altares estão ligados diretamente aos túmulos dos mártires, o seu ornato logo se transferiu àqueles (HEINZ-MOHR, 1994, p. 163).
A ROSETA - flor estilizada - foi empregada já na Mesopotâmia. Fez parte de estilos revivalistas na arquitetura desde a Renascença. É utilizada em sequência ou separada, formando faixas. No primeiro exemplo abaixo, vê-se uma sucessão de rosetas combinadas a entrelaçados. No segundo, as rosetas aparecem isoladas e no terceiro, formando uma faixa.

A SERPENTE, quando esculpida engolindo a si própria, denota a eternidade. Nos exemplos a seguir, a serpente está em forma de círculo tendo, ao centro, respectivamente, um girassol e uma rosa. O girassol é o símbolo da fé em Cristo e a rosa, na Idade Média, um atributo das virgens, e também um símbolo da Virgem Maria (LEXIKON, 1994, p.175).  
 

Um MANTO (ou uma cortina) sobre os objetos refere-se à tristeza que os envolveu. Em geral, está associados a outros símbolos, como um livro ou uma coluna. Nos exemplos a seguir, o manto cobre, quase totalmente, o objeto, uma espécie de vaso.

O uso constante de VASOS na decoração dos templos deve-se, principalmente, ao seu sentido esotérico. O vaso está ligado à simbologia da fecundidade – o útero – e representa, portanto, um depositário da vida, o tesouro da vida espiritual (SOBRAL, 1986, p. 116).
O vaso simboliza, quando vazio, o corpo separado da alma e, coberto com um manto, refere-se à tristeza que o cobriu.
A seguir, alguns exemplos: o primeiro, de ferro, é um detalhe de um gradil de proteção de um túmulo; o segundo, destaque para o nome de mulher gravado no corpo do vaso; o terceiro é envolvido, parcialmente, por folhas.


Há um grupo de vasos que possui em seu topo, como se fosse uma tampa, um ornamento que imita chamas. É denominado VASO-FOGARÉU ou simplesmente fogaréu. Simboliza o elemento fogo, a destruição das forças do mal pela purificação e é, normalmente, utilizado como símbolo da fé e do sacrifício. Foi utilizado em fachadas de edifícios, bem como em retábulos nas igrejas. Nos túmulos do Soledade, podem ser encontrados alguns exemplos como os vistos a seguir.

Dos exemplos seguintes, os quatro primeiros possuem, em comum, o uso de um panejamento em seu corpo, adornado-o. O quinto possui a seção do corpo com forma não circular, contrário dos demais, e apresenta ranhuras horizontais.

A imagem a seguir mostra dois ângulos do PÓRTICO localizado atrás da capela do Cemitério. Há nele, alguns elementos que fazem citações à linguagem utilizada pelo arquiteto italiano Antônio Landi como: as volutas formando aletas lateralmente e o uso da linha curva combinada com segmentos de reta nas laterais, além de vasos-fogaréu.

O mausoléu a seguir é como uma réplica, em proporções menores, de um templo dórico e seus detalhes ornamentais: frontão triangular com acrotério sob a forma de uma cruz, tríglifos,no friso, gotas abaixo desse, capitel e pilar com fuste estriado.
Abaixo da imagem, está um desenho com os ornamentos citados. 
Detalhes ornamentais da ordem dórica
Fonte: KOCH, 2004, p. 11

Este é um dos mausoléus mais ornados do Soledade. O frontão é encimado por um elemento em arco, coroado por uma cruz, no qual há uma águia com as asas abertas. No centro da composição, há uma cártula com a dedicatória do proprietário do mausoléu, sob a qual há uma cabeça de anjo alada. Enquadrando a cartela, pilastras, volutas e conchas. Em cada lado do frontão, um vaso fogaréu. O friso tem, ao longo de seu desenvolvimento, elementos vegetalistas, ao centro, duas cabeças de animais e, nas extremidades, cabeças de Cristo. Os pilares são coroados por capiteis nos quais há dragões e elementos vegetalistas. A porta do mausoléu, em arco pleno, é encimada por uma cabeça de anjo alada.

A seguir, outro exemplar bastante ornamentado. Sem a leveza dos demais túmulos, este exibe formas pesadas, principalmente, na parte superior com grandes peças, semelhantes a acrotérios, e rosetas. Destaque para as duas figuras femininas, como se fossem apoios, que lembram Cariátides gregas. No centro do conjunto, ao alto, folhas circundam o elemento superior. Sob as folhas, estão: uma ampulheta e um par de asas abertas sobrepostos a um osso e uma foice cruzados. Abaixo do conjunto, um brasão, no qual se observa uma âncora, símbolo relacionado à patente militar do proprietário do túmulo. Na parte de baixo, central, uma inscrição contendo uma dedicatória. Acima do texto, um festão vegetalista em arco e dois, pendentes nas laterais. Na base do jazigo, sequência de elementos circulares, semelhantes a botões.
Esta postagem encerra, por enquanto, a análise / descrição parcial dos ornamentos do Cemitério da Soledade. Sem a pretensão de querer esgotar o assunto ou de fazer um inventário do acervo cemiterial do local, esta é minha contribuição para que se olhe com mais atenção para essa que é uma das preciosidades da cidade de Belém, e que vai, há anos, tentando guardar recordações de um tempo distante.

Todas as imagens: Domingos Oliveira, 2011
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HEINZ-MOHR, Gerd. Dicionário dos Símbolos: imagens e sinais da arte cristã. São Paulo: Paulus, 1994.
 

KOCH, Wilfried. Dicionário dos Estilos Arquitetônicos. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
 

LEXIKON, Herder. Dicionário de Símbolos. São Paulo: Cultrix, 1994.
 

OLIVEIRA, Domingos Sávio de Castro. O vocabulário ornamental de Antônio José Landi: um álbum de desenhos para o Grão Pará. 2011. 227 p. Dissertação (Mestrado em Artes). Instituto de Ciências da Arte da Universidade Federal do Pará, Belém, 2011.
 

SOBRAL, Maria de Lourdes Sampaio. As Missões Religiosas e o Barroco no Pará. Belém: Universidade Federal do Pará, 1986.